Cidadão Kane e a Estética de Plotino


Quando eu tinha por volta de 14 anos, li em algum lugar que o filme “Cidadão Kane” era considerado pela crítica o melhor filme da história do cinema. Corri até a minha locadora de vídeo favorita e descobri que ela tinha o VHS! Estava alugado… mas fiz a reserva e esperei ansioso até o dia seguinte para ver a tal obra-prima.

Naquela noite, coloquei a fita e redobrei minha atenção… o filme começou e eu comecei a bocejar. Não parecia melhor do que Guerra nas Estrelas… meus olhos começaram a pesar… não estava conseguindo entender muita coisa. Apertei o stop e prometi para mim mesmo que assistiria a fita depois com mais calma. Levou 19 anos para eu ver o filme de novo…

Só se apreende a beleza das coisas quando nós nos tornamos belos
Plotino

Nos anos que se passaram, vi milhares de filmes, aprendi conceitos como comunismo e liberalismo, estética, semiótica, sistemas. Li sobre psicologia e sua influência nas artes. Descobri Shakespeare e o fascínio que exerce sobre diretores e atores. Li, ouvi, reli, vi, revi e reouvi.

Sem este background, nunca teria gostado de – ou sequer percebido – “Cidadão Kane”. Mesmo na época, o filme não fez muito sucesso e determinou o fim da carreira de Welles – que estava apenas começando. Razão? Excesso de sutilezas. Sua grandiosidade política, psicológica, metafísica, narrativa e artística é imperceptível aos olhos de quem está acostumado hoje com Guerra Nas Estrelas (que tem os mesmos méritos, num nível menos abstrato). Não se trata de uma obra pop, mas de um estudo sobre a alma humana e sobre a arte num tempo em que isto ainda não acontecia no cinema sonoro. Para gostar do filme, é preciso o olhar atemporal do conhecimento.

Em suma, entendo o abismo que existe entre o filme e o espectador comum – principalmente aquele que não é norte-americano e não se identifica emocionalmente com Kane. O garoto que eu fui nunca ia gostar do filme… e, sim, ele ainda considera Star Wars como o melhor filme do cinema… e talvez até seja, mas certamente ficaria melhor se usasse metade dos recursos artísticos imperceptíveis de “Cidadão Kane”.

E nos acompanha!

    

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